sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ANIMAGO MORTIS - Capítulo X – Temores

ANIMAGO MORTIS
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Capítulo X – Temores
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Um castelo não é tão grande quanto parece. Aliás, para as notícias, nem mesmo o mundo é tão grande! Obviamente que todos ficaram sabendo do que aconteceu naquele sábado em Hogsmeade, embora muitas coisas ainda estavam obscuras e sem explicação, como o fato do gato da Hermione ser, na verdade, um bruxo animago e nunca ninguém ter descoberto isso. Havia muita especulação. Havia também muitos comentários maldosos, principalmente vindos da Sonserina. Parvati e Lilá também andaram falando algumas bobagens, mas Rony, Harry, Gina, Neville e Dean Thomas andavam policiando todos os colegas, para que não ficassem falando besteiras e espalhando boatos infundados e mentirosos. De certa forma, as fofocas e boatos não estavam tão intensos como se esperaria que estivessem, afinal, todos estavam compadecidos com o que aconteceu à Hermione Granger, que, por pouco, não foi morta por estrangulamento por um comensal da morte.

Hermione estava sentada a beira do lago, oculta por uma frondosa árvore de tronco muito grosso e grandes raízes proeminentes. Estava sentada recostada no tronco, entre duas raízes. Desde que recebera alta de Madame Pomfrey, tentava o máximo possível se manter incógnita. A notícia do ocorrido no sábado em Hogsmeade alastrou-se como fogo em relva seca. Até mesmo no jornal Profeta Diário a notícia saíra em primeira capa, embora Hogwarts não tenha permitido a veiculação de nomes... o que era de todo o péssimo, menos mau.

Apoiado sobre suas pernas estava um livro que havia emprestado da biblioteca e estava lendo-o pela terceira vez. Mas com enfado, fechou o livro rudemente, soltando um longo suspiro e fechando os olhos, que estavam marejados. Na capa, em letras prateadas e estilizadas, o título 'Animago Mortis' reluzia com a claridade daquele fim de tarde, onde o sol de fim de verão banhava as plácidas águas do lago, onde descansava serenamente uma lula gigante.

Recostou sua testa no livro, encolhendo-se ainda mais, abraçando as próprias pernas. Suas lembranças iam a três dias atrás, assim que teve alta da enfermaria. Teve algumas horas de uma difícil conversa com seus professores, que lhe falavam com muita cautela e preocupação. Queriam passar-lhe uma tranqüilidade que sabia que seria muito difícil de tê-la depois daquele ocorrido tão estranho e tão absurdo. Teve vontade de chorar novamente ao se lembrar disso.

Três dias atrás...

Hermione recebera alta de Madame Pomfrey. Era por volta das 4 horas da tarde. Enquanto a medibruxa saia da enfermaria para chamar a Profª Minerva para acompanhar a menina até o escritório de Dumbledore, Hermione ficara sentada no leito onde jazeu por dois dias inteiros, recuperando-se da violência que sofrera. Olhando para o lado oposto da enfermaria, quase no final da grande sala, havia um leito oculto por leves cortinas brancas que tremulavam pela brisa que ali corria. Subitamente, criou coragem e dirigiu-se até o leito, tomando a devida precaução de não ser flagrada por ninguém, embora estivesse a sós na enfermaria. Sabia que ele estava ali. Por algumas vezes, ouviu seus murmúrios de dor e por duas vezes ouviu-o gritar. Madame Pomfrey estava sempre por perto e por diversas vezes viu o Prof Snape junto, auxiliando-a. Sentia seu coração levar apunhaladas ao ouvir aqueles gemidos. Sentia-se, de alguma forma, culpada e responsável por ele... afinal, ele era o Crookshanks, não era? O seu gatinho de estimação tão companheiro, que esteve consigo por quatro anos.

Ainda há muitos passos do leito onde jazia o animago, Madame Pomfrey entrou rapidamente na enfermaria acompanhada pela Profª Minerva. Hermione assustou-se com a aparição súbita e as duas alcançaram-na preocupadas.

—O que houve, querida? Aconteceu algo ao rapaz?

—N-não, não Madame Pomfrey... – Hermione tentava disfarçar. —Acho que ouvi gemer e então.. como a senhora não estava...

—Está tudo bem, Hermione. Deixe que Madame Pomfrey cuide do rapaz. Agora venha comigo até a sala do Diretor, ele quer muito falar contigo.

No escritório de Dumbledore permaneceu por quase três horas, ouvindo muitas coisas sobre o animago, cujo nome era Pavel Nicolai Donskoi...

"—Nome bonito... ele reclamará muito por ter sido chamado de 'Pernas Tortas' por tanto tempo..." – divagava entre uma lágrima e outra, a Hermione que estava sentada a beira do lago naquela agradável tarde de quinta-feira.

Dumbledore estava com um semblante muito preocupado, que não era muito diferente de Minerva e Snape, que também ali estavam. Os três professores estavam, sim, muito preocupados com o futuro daquele rapaz. Obviamente que o Ministério soube do ocorrido e estava pressionando Dumbledore. Logo que Donskoi despertasse, seria levado a um inquérito, pois bem, ele havia cometido mais de um crime e todos eles eram gravíssimos. Sabendo o quanto o Ministério era irredutível, temiam seriamente a pena que seria imposta ao pobre garoto. Sim, o rapaz era digno de compaixão, afinal, passara duas décadas preso a uma maldição e agora, quando finalmente consegue libertar-se, poderia ser enviado à Azkaban!

—...sabemos que não será fácil, Hermione, mas tente não transformar isso num drama ainda maior do que já é. – dizia Dumbledore, com seus longos e finos dedos cruzados sobre a escrivaninha e que enviava um olhar penetrante a menina sentada a sua frente. —Querendo ou não, isso lhe afeta diretamente e não queremos que você sofra com isso, filha.

Hermione desviava do olhar do diretor, abaixando sua cabeça. Estava realmente muito confusa com tudo, não sabia sequer o que sentir, como agir, o que dizer. Sabia também que Dumbledore via através de seus olhos a sua alma e talvez fosse mais fácil do que responder perguntas.

—É, eu sei, professor... mas é tão estranho, tão absurdo, ainda mais quando descobrimos toda aquela história sobre Sirius e Pettigrew, há quatro anos...

Voltava seu olhar aflito para o Prof Dumbledore, quase em lágrimas.

—O Senhor acha que ele será mesmo levado à Azkaban?

—Isso é muito provável, minha querida, afinal, há dois crimes muito graves contra o Sr Donskoi: ser um animago ilegalmente e ter matado um homem...

—Mas.. mas.. se ele não tivesse o matado, nós é que teríamos morrido!

—Sim, legítima defesa motivada por perigo iminente e fortes emoções... e o sujeito era um comensal... bem, francamente, não sei o que ocorrerá, Hermione e, dependendo muito do que encontrarmos quando o Sr Donskoi acordar, Hogwarts preparará uma forte defesa a seu favor.

—Como assim 'dependendo do que encontrarmos'?

—Não conhecemos muito bem esse rapaz, não sabemos o que se passa em sua mente, não sabemos que atitude ele poderá tomar agora que está de volta. Se a pior das hipóteses se confirmar, será melhor mesmo que ele seja levado para Azkaban.

Hermione sentiu como se uma lança atravessasse seu peito com aquelas palavras tão duras de Dumbledore. E estava muito confusa, como jamais estivera. Não era de seu gato de estimação que falavam... ele não existia mais, aliás, jamais existiu de fato! Por que se importava tanto com aquele desconhecido? Se importava tanto como se fosse um velho amigo, alguém muito importante para si?
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—Alvo... talvez eu esteja me precipitando, mas... – Snape tomava a palavra e sua expressão tão incomum era de uma certa tristeza. —...Nicolai sempre foi um bom garoto, apesar de tudo. Era muito honrado, muito sério. Talvez eu esteja falando bobagens, mas tenho quase certeza de que ele não se aliou a Voldemort para auxiliá-lo, muito pelo contrário.

—É, também tenho esse pressentimento, Severus... com todos esses fatos vindo a tona, relembro de algumas coisas estranhas, por assim dizer, que aconteciam naquela época em que vocês ainda estudavam. Creio que o rapaz agia como um agente duplo, como você o faz hoje Severus, mas ele, ingenuinamente, agia por conta própria. Essa nossa tese pode até ser confirmada pelo fato de ele ter sofrido uma maldição das trevas muito antiga e possivelmente fora Voldemort que o amaldiçoara. Se for mesmo isso e o porquê de tudo o mais, somente o Sr Donskoi poderá nos responder. Por ora, portanto, o melhor é pararmos de especulações.

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Hermione era desperta de suas lembranças por uma aflita Virgínia Weasley, que a chamava e a chacoalhava, com o coração nas mãos.

—Mione! Mione! Acorda! Você está bem?!

—Gina? Desculpe... estava um pouco.. distante.

—É, eu percebi. – Gina sentava-se sobre as pernas de frente para Hermione, aliviada. —Mas está tudo bem, né?

—Heheh, isso é engraçado... – Hermione ria tristemente. —Nunca ouvi tanto essa pergunta quanto agora. E, sinceramente... não, não está tudo bem, mesmo!

—É, eu entendo.. a cabeça é sempre mais difícil de curar. Mas, se você, ao menos, confiasse alguma coisa a mim.. algo que esteja realmente lhe incomodando...

Hermione olhava para a menina ruiva a sua frente, avaliando se deveria ou não contar o que tanto tinha medo. Sim, o que sentia, acima de tudo, era medo. Medo de estar nas mãos de um desconhecido.

Esticou as pernas, alongando os músculos. Sobre as pernas, o livro com o romance bruxo, onde falava de um homem que fora condenado a viver preso na sua forma animago. Porém, o protagonista daquela história era perverso e desumano, e fora condenado por um deus a permanecer na forma de um cão vira-latas sem dono e sentir na pele e na alma toda a humilhação, crueldade e tristeza que fazia passar todos aqueles que julgava lhe ser inferiores. Mas, o final apesar de belo, foi trágico.

"—Por Deus! Não quero isso pro Shanks! Espero que não haja muitas semelhanças com esse livro..."

—Sabe, Gin... eu tenho medo. Estou com muito medo daquilo que o Crookshanks se tornou...

—Medo, Mione? Por que? Duvido muito que esse tal de Donskoi venha a lhe fazer mal. Lembra-se um vez quando a Profª Minerva falou que um animago tem plena consciência de seus atos? O Shanks te adorava, Mione!

—É... e pelo que lembro, a você também!

A duas coraram, desviando-se uma do olhar da outra. Era mesmo uma situação muito complicada.

—Aaiii! Será que ele vai se lembrar daquele chamego que eu tinha com ele? Eu adoro gatos! Não podia vê-lo que logo ia pegá-lo no colo! E o Shanks sempre foi tão fofo!

Hermione não conseguiu conter a risada, pois a Gina estava mesmo muito encabulada e não parava de esfregar os dedos no rosto, deixando sua face ainda mais vermelha.

—Não fique assim, Gin – Hermione tentava consolar a amiga, segurando a mão da menina antes que ela ferisse o rosto. —Tenho certeza de que se ele lembrar, ficará muito grato por você ter sempre o tratado bem, ao contrário de muitos por aí.

—Feh! Afinal, quem veio consolar quem? Bom, aceito isso como consolo. Também aceito a idéia de como ele poderá se portar ao ver as nojentinhas da Patil e da Brown!

—Isso é complicado... espero que ele não seja vingativo... espero que ele seja mesmo uma boa pessoa, como Snape havia me dito...

—E você ainda não nos contou o que os professores lhe falaram sobre esse Donskoi...

—Contei sim, em parte... você sabe que Dumbledore me fez promoter a não falar nada o que me disseram sobre esse cara, me desculpe.

—Tudo bem, Mione! A última coisa que quero é te pressionar... mas e aí, não vai me falar qual é esse medo que você tanto sente?

—Bem... o que você faria.. como se sentiria se, de repente, seu diário caísse na mão de qualquer um? E que seus segredos mais íntimos fossem espalhados aos quatro ventos?

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—É bom vê-lo desperto, meu jovem! Como se sente, Sr Donskoi?

Nicolai, que enxugava as mãos e o rosto com uma toalha branca que estava sobre a mesa de canto, vira-se admirado para Dumbledore, que se aproximou sem que ele percebesse.

"—Esse bruxo é incrível, nem como gato eu conseguia antevê sua chegada!"

O rapaz nada falou, apenas sorriu para o onipotente bruxo a sua frente. Seus olhos transmitiam muita confiança e otimismo, que era contagioso. Fez uma reverência, curvando-se para frente, sem desprender seu olhar dos de Dumbledore.

—Papoula me falou que você ainda não conseguiu firmar sua voz, mas não creio que isso seja impedimento para uma boa conversa, não é mesmo? Afinal, precisa exercitar sua fala. Me acompanharia num passeio pelos jardins, Sr Donskoi?

Nicolai apenas sorriu e assentiu positivamente com a cabeça. Uma das coisas que sempre quis fazer era conversar com esse bruxo soberbo, mas nunca tivera a oportunidade e seu maior erro, sem duvida alguma, fora jamais contar seu planos sobre Voldemort à Dumbledore. Se tivesse feito isso, não teria perdido vinte anos de sua vida...

—Por favor... me chame.. Nicolai.. só...

—Muito bem, Nicolai... mas creio que precisará de sapatos, não? É difícil crer que Severus tenha esquecido desse detalhe.

Enquanto Nicolai olhava para os próprios pés, pois nem havia percebido que estava descalço apesar do chão frio, certamente por estar acostumado a andar sem sapatos, Dumbledore agitava a sua varinha na direção dos pés do rapaz, conjurando os calçados.

—Oh, belas sandálias de couro! Espero que não se importe, é que sempre gostei desse tipo de calçado trouxa, são muito frescas e confortáveis!

Dumbledore levantava a veste o suficiente para o garoto poder ver que ele calçava os mesmos tipos de sapatos. Nicolai apenas sorriu gentilmente, o que, para Alvo, era um ótimo sinal. Afinal, logo a primeira vista o rapaz demonstrara ser de fácil convívio... ao menos, assim esperava.

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—Aah, nem me fale em diário, Mione! A última vez que tive um foi a maior tragédia da minha vida!

—É, eu sei e é algo que jamais esqueceremos... Mas o que estou dizendo é a mesma coisa. Obviamente que não tem a mesma proporção e nem seria uma tragédia que envolveria outras vidas além da minha, mas...

—Mas? Não entendi ainda o que você quis dizer... por acaso o Crookshanks leu seu diário, é isso?

Hermione não conseguiu conter a risadinha, afinal, apesar de ser muito boa menina, Gina Weasley era mesmo muito bobinha.

—Não, Gin. Acho que é ainda pior... digamos que Crookshanks era o próprio diário. Posso dizer que ele era como um confidente meu...

—Ah! Bem, sim, e... o que você contava a ele? Eram coisas muito íntimas? Alguma coisa muito grave?

—Jogando verde para colher maduro, Gin? Bem, digamos apenas que eram sim, coisas muito íntimas e que seria péssimo se outras pessoas ficassem sabendo. Nada que chegasse perto de uma catástrofe, mas não estou na minha fase psicológica mais segura.

—Isso é verdade! Todos estão notando o quanto você anda estressada, se magoando muito fácil. Acha que esse Donskoi pode querer chantageá-la com isso? Sei lá, talvez espalhar seus segredos para todo mundo? Ouvi dizer que ele é um sonserino...

—O que é um agravante! É, ele é mesmo um sonserino e estudou aqui na mesma época de Snape e dos pais de Harry. Na hora em que aconteceu aquelas coisas em Hogsmeade eu estava tão chocada que não lembro de nenhum detalhe, mas os meninos falaram que ele vestia o uniforme de inverno da Sonserina.

—Ânimo, Mione! Não fique triste! Pense o lado positivo. Talvez ele reconheça o quanto o tratou bem e lhe seja até grato por isso.

—Talvez... vamos ver... "se fosse apenas isso, mas estou com um péssimo pressentimento!"

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Fim do Capítulo X – continua...
By Snake Eyes – 2004
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N/A: Crookshanks vem do inglês medieval que quer dizer, literalmente, "entorte canelas" ou, melhor adaptando, "pernas tortas".

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