quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Capítulo IV – Entre Sangues-Ruins

Capítulo IV – Entre Sangues-Ruins

Hermione desperta pontualmente às 6:30h, como é seu costume todas as manhãs. A princípio, por causa do ambiente idêntico ao seu quarto na casa dos pais, pensa que ainda está em férias e volta a fechar os olhos, para dormir mais alguns minutinhos.
Crookshanks, também acostumado a despertar na mesma hora junto com a dona, aproxima-se do rosto de Hermione e fica apenas observando que ela havia se esquecido de onde estava e cogitava a possibilidade de deixá-la dormir mais um pouco. Lembrou-se que nesta hora o castelo estava completamente deserto, todos ainda dormiam, então era a melhor hora para alguém andar por aí sem ser importunado sequer pelos fantasmas. Se deixasse Hermione dormir por mais tempo, talvez ela tivesse que dar muitas explicações do porque estava andando pelo castelo em vestes de dormir e, pior, poderiam acabar descobrindo o seu ‘refúgio secreto’.
Fugindo de seus pensamentos, Crookshanks mirou-a novamente. Ele gostava de sua aparência enquanto dormia; não havia sinais de preocupação ou olhar triste. Deitada de lado com as mãos quase sob o rosto, lábios úmidos entreabertos e cachos caindo rebeldes sobre a face rosada, lhe davam um ar angelical, a serenidade que tanto precisava nesses últimos tempos. Poderia ficar horas apreciando-a, mas eles não tinham horas. Balançou bruscamente a cabeça para desmanchar pensamentos que não queria mais que existissem, por trazerem uma esperança ilusória que machucava profundamente. Droga! Ele era um gato e não havia qualquer coisa no mundo que mudaria essa condição, a menos que... “idiota!” ...era mais certo ele próprio morrer de velhice com 200 anos do que aquele ser hediondo vir a desaparecer completamente, assim como dava provas claras...
Jogou a cabeça sobre a testa da menina, acariciando-a para despertá-la. Baixando até sua bochecha, dando lambidinhas e uma leve mordiscada, que fez Hermione despertar com um sorriso por causa das cócegas. Apoiou-se num dos braços, rindo para o gato. Este deu um miado rouco e monótono e correu para a porta, arranhando-a.
Aaaaah! Meu deus!!
Hermione levantou da cama num salto, jogando a colcha verde florida no chão. Mas isso não importava, daqui a minutos ela desapareceria dali. Correu em direção a porta, abrindo-a cuidadosamente sem fazer ruído, deixando apenas uma brecha por onde espiar. O corredor parecia deserto, Crookshanks empurrou mais um pouco a porta para sair, para se certificar de que não havia ninguém ali ou próximo para flagrá-los na Sala de Requerimento. Virou-se para sua dona, dando-lhe um olhar confiante. Hermione saiu na ponta dos pés, mesmo porque o chão estava gelado e ela se esquecera de calçar os chinelos quando saíra do dormitório feminino, tão furiosa estava com a situação ridícula de Patil e Brown. Logo que alcançava a metade do corredor, a porta verde-clara encolhera na parede até desaparecer completamente, restando apenas uma maciça parede branca com um archote pendurado, ainda flamejando.
Hermione e Crookshanks seguiram em passos leves a apressados para a Torre da Grifinória. As pontas dos pés de Hermione estavam dormentes pela friagem do chão. Finalmente alcançaram o quadro com uma sonolenta mulher gorda com um decotado vestido vermelho, que sempre lembrava a Hermione uma imensa salsicha que cozinhara demais. Falou a senha e, sem ao menos abrir os olhos, a mulher do quadro bocejou um “...diah...” arrastado e afastou, dando lugar a abertura do Salão. Crookshanks entrou primeiro, pulando na frente de Hermione, para observar o Salão Comunal, embora fosse inútil, pois nada poderiam fazer se houvesse alguém ali a espreita.
Estranharam ao encontrar a lareira acesa aquela hora. Hermione andou com cautela, esgueirando-se na parede, tentando tornar-se imperceptível para alguém que estivesse sentado oculto nas altas poltronas de fronte a lareira. Crookshanks prefiria acompanhar a dona ao invés de encarar o alguém que ele já sabia estar ali, por ter ouvido o chiar de uma respiração leve e principalmente pelo cheiro, que ele sabia exatamente a quem pertencia. Estranhou... por que aquele garoto estaria ali, a essa hora? Sabia que ele era um dos que sempre acordavam atrazados para o café por ser um dos últimos a ir dormir, mas... torcia para que Hermione chegasse logo às escadarias do dormitório feminino sem ser notada, pois ele não tinha certeza se o rapaz estava dormindo...
Uma voz grave chamou por Hermione, que sobressaltou-se. Crookshanks sentiu o sangue esquentar... o que esse garoto queria com ela? Já não era suficientemente perturbada por seus ‘amigos’ mais próximos?!
Dean...? Por que está aí? Acabou dormindo aí mesmo? Deve estar com o corpo dolorido... – Hermione tentava disfarçar seu susto e sua indignação por encontrar alguém acordado no Salão Comunal.
Er... mais ou menos... mas eu estou bem. Quer chá? Pedi ao elfo Dobby para que trouxesse... – Dean Thomas jogava-se a frente da poltrona, olhando para Hermione sobre a aba do encosto.
Oh, muita gentileza a sua, Dean, mas eu prec...
Por favor, Mione! Gostaria de conversar contigo, se quiser, claro...
Pelo olhar de suplica, Hermione pode perceber que talvez o rapaz não quisesse implicar consigo, mas, mesmo assim, sentou-se na poltrona ao lado com muito receio. Crookshanks estava com as orelhas voltadas para trás e uma expressão brava com os olhos formando um meio circulo. Saltou para o colo da dona, sem desviar o olhar agressivo de Dean. Se esse aí também estava pensando em falar qualquer gracinha para a sua Hermione, ele poderia esperar uma bela cicatriz de uma ponta a outra em seu rosto pardo!
Olha, me desculpe, Mione, eu... – Dean estava um pouco nervoso, torcia as mãos e estava achando seus pés as coisas mais interessantes da Terra, evitando olhar diretamente para a garota. Isso era algo que sempre quis falar com ela, mas nunca encontrou a coragem necessária... talvez fosse mais fácil enfrentar 10 trasgos, não gostaria de tocar nesse assunto, mas...
Hermione o olhava apreensiva, agarrando Crookshanks pelas patas, talvez temendo que ele voasse pro pescoço do rapaz. Seu coração batia dolorosamente, não estava pronta para uma declaração ou coisa do tipo, além de nunca ter despertado o mínimo interesse no rapaz, aliás, jamais se passou qualquer lampejo de tal idéia em sua cabeça alguma vez na vida, mas, teria que enfrentar, não é mesmo?
Você não vai querer o chá? – Desviando-se do assunto, para ganhar mais algum tempo, Dean enchia uma xícara e oferecia a Hermoine. Está muito bom, é chá preto comum, se quiser leite, está neste outro bule. Ah, os bolinhos estão excelentes! Dobby é um ótimo cozinheiro!
Enquanto Hermione pegava a xícara das mãos do rapaz, atônita, Dean levantava-se num salto e andava de uma escadaria a outra, para certificar-se de que não havia ninguém por perto. Respirou fundo e voltou até a garota, mas sem se sentar na poltrona, deixando-se apoiado no encosto da mesma.
Desculpa, não quero deixá-la alarmada, não vou importuná-la como os outros têm feito ultimamente, mas você é a única da nossa casa com quem posso falar sobre isso! – Adiantou-se ao ver a expressão aflita da garota.
Oh, puxa, não me importunar... isso é bom, mas... o que é tão importante assim que só eu posso ouvi-lo? Como assim sou a única da Grifinória para isso? – Hermione deixou os ombros caírem, como um alivio.
Não sei se você já notou, mas... essa coisa de sangue-puro não é apenas privilégio da Sonserina...
Bom, claro que sim, muitos dos alunos de Hogwarts são de famílias bruxas tradicionais, sendo a maioria mestiços. O que você quer dizer com isso, Deam?
Que apenas você, os irmãos Creevey e eu somos os únicos sangues-ruins da Grifinória! E não há mais que 30 de nós em toda a escola!
Hermione levantou-se num pulo, como se assustando com o que ouviu, derrubando Crookshanks que a olhou severamente, mas voltando para Dean... o que será que o garoto queria falar sobre sangues-ruins?
Dean! Não fale isso! O que aconteceu? Alguém esteve implicando com você também, alguém da própria Grifinória te xingou de sangue-ruim?!
Não diretamente, eu diria, mas... Mione, você não é a única que é acometida por essa falta de respeito, acredite! Há sim um imenso preconceito entre os bruxos e nós trouxas, às vezes é quase imperceptível, mas há!
Dean, você está falando bobagens, nós somos bruxos e não trouxas, mesmo que tenhamos nascido em família trouxa e...
Eu sei, Mione! Mas o hábito não faz o monge... não digo que todos os sangues-puros são preconceituosos, que se importam com isso, mas, acredite, a maioria deles sustentam nem que seja uma ponta desse preconceito, inclusive aqueles que são nossos colegas, amigos...
Oh, Dean... o que aconteceu? Você não é assim depressivo... – Hermione se compadeceu com a expressão de desolação do rapaz. Teve até a impressão de que seus olhos estavam marejados, mas ele evitava encará-la agora.
Dean andava de um lado para o outro diante da lareira, para não ter que encarar Mione de frente. Estava engolindo a seco e sua cabeça começava a doer por isso.
Mesmo os nossos colegas, Mione... possamos nos tornar os maiores bruxos, mas nada jamais apagará o fato de termos nascidos trouxas! É por isso que tantos a importunam, tentam quebrar o seu equilíbrio, a sua tranqüilidade. Você, Mione, é a melhor aluna de Hogwarts em todos os sentidos e você é trouxa! Eles a invejam demais, alguns tanto que até desejam o seu mal...
Hermione largou-se pesadamente na poltrona. Tentava sufocar um pranto que se formou com aquelas últimas palavras... “alguns tanto que até desejam o seu mal...” Então era isso que a Prof Minerva queria lhe dizer? Que lhe a invejavam e a antipatizavam não porque ela era apenas uma boa aluna, mas porque, inclusive, era uma boa aluna sangue ruim!? Pensando bem, isso deveria mesmo ser encarado como uma afronta pelos alunos de famílias tradicionais, mas, daí, desejar o seu mal e ainda vindo de colegas da mesma casa?!
Crookshanks olhava atônito para Hermione. Ele próprio a considerava, no início, uma sangue-ruim intrometida e até mesmo desagradável, mas depois de conviver intimamente com ela, mudara totalmente seu conceito sobre, tanto que até havia esquecido completamente que alguma vez tivesse esses pensamentos podres em relação a essa menina adorável... mas, desejar-lhe mal por isso, bom, isso é doentio, já é demais!
Dean ajoelhou-se diante de Mione, segurando-lhe as mãos. Agora ela podia ver que seus olhos estavam mesmo rasos d’água. Algo sério aconteceu a ele e provavelmente foi na maldita noite passada.
Me desculpe, Mione... não queria deixá-la ainda mais triste! Mas queria que soubesse que sei pelo o que passa, sei exatamente o que sente em relação a essas coisas. Não sou um grande aluno, mas... é só você sobressair-se em alguma coisinha, qualquer que seja, para ouvir algum comentário maldoso sobre ser sangue-ruim, mesmo que indireto. Quero também dizer que acredito que será VOCÊ a mostrar a esses grandes babacas que os trouxas não são assim tão simplórios! Você é poderosa, é muito inteligente, e sei que o fará!
Dean jogou-se de volta para a poltrona que antes estava, colocando as mãos sobre os olhos e testa, apertando com força, tentando conter algo. Hermione ficou ainda mais compadecida com o rapaz, levantando de sua poltrona e parando ao lado da outra onde o rapaz estava jogado. Colocando suavemente sua mão sobre o ombro de Dean, para dar-lhe conforto no mesmo momento em que chama-lhe a atenção, usando a voz mais suave que possuía:
Dean... me conte o que aconteceu? Não fique assim, isso não vai te fazer bem...
Uma garota, da nossa casa, do 5º ano... –Dean falava pausadamente, tentando conter inutilmente as lágrimas que já caiam em abundância.
Pode falar, não tenha medo... não contarei a ninguém... – Hermione apertava mais forte o ombro do rapaz, para encorajá-lo.
Essa garota, ela... eu estava afim dela desde o ano passado... passei todas as férias pensando em como me declarar a ela... então eu o fiz, ontem, depois de ter preparado tudo... éramos amigos, sabe? Pelo menos eu achava isso...
Dean abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre as mãos, tentando conter os soluços e engolir as lágrimas. Hermione segurava-se para não chorar também. Ela era relativamente sentimentalista para não suportar cenas como aquelas, mas o garoto precisa de um consolo, de um ombro amigo. E ela mesma bem sabia o quanto uma palavra gentil, um gesto de afeto, um calor amigo faziam falta... só porque ela não tinha, não poderia negá-lo aos outros, ainda mais quando lhe pediam ajuda. Dean jamais lhe dirigiu qualquer palavra de conforto, mas ele precisava e muito de conforto, agora, e ela não poderia lhe negar isso, sabia o quanto era doloroso.
Hermione alisava as costas do garoto, encorajando-o a continuar contando o que aconteceu, dizendo que ele se sentiria melhor depois de desabafar. Crookshanks olhava tristemente para a cena e algo também lhe doía... talvez remorso. E se Hermione, por algum devaneio do destino, descobrisse que ele próprio, seu confidente, alguma vez a tratou unicamente por sangue-ruim? E se ela descobrisse que ele chegou a desprezá-la por isso e tudo que queria era apenas usá-la para se aproximar de Pettigrew? Dean levantou-se, desvencilhando-se de Hermione, nervoso, o que trouxe o gato de volta de seus pensamentos...
Sem voltar-se para Hermione, dando-lhe as costas e fitando diretamente o fogo que ardia na lareira, calmamente, evitando chorar de novo, Dean ia contando o que aconteceu...
...ela não disse com essas palavras, mas deixou isso claramente entendido... que já era suficientemente vergonhoso sua mãe ser trouxa e não queria criar a mais remota possibilidade de algum dia se envolver com alguém que não fosse de família bruxa...
Hermione mantinha as mãos sobre o peito, como se quisesse conter a angustia que ali se formava... se humilhada por sonserinos por ser descendente de trouxas era uma coisa, se rejeita ou sofrer retaliações por outros colegas por causa dessa condição era muito ruim, mas dava pra aturar, como fazia, mas... ser rejeitado pela pessoa que se ama por causa de um preconceito estúpido?! Por Merlin, isso devia ser terrível! Dean virava-se para Hermione, encarando-a, mas sua expressão era mais de raiva do que de mágoa.
... o pior é que nos dávamos bem! Eu sempre a ajudava nas lições, íamos juntos à Hogsmeade, conversávamos como bons amigos... se ela tivesse me dado o fora, apenas se dissesse que éramos só amigos, mas... ela teve que falar nessa maldita condição de sangue-puro!
Como um turbilhão, aquelas palavras do rapaz fizeram imagens estranhas e muito antigas virem a tona na mente de Crookshanks, o que o fez arregalar os olhos e sentir como o coração e respiração cessarem.
Uma garotinha de uns 12 ou 13 anos, de cabelos castanhos amarrados num rabo de cavalo, soluçava ferozmente enquanto ouvia-se a voz grave, macia e fria de um garoto... mas deste garoto, tudo que era possível ‘ver’ era a sua voz, mas suas palavras soavam estranhas, como se houvesse algum sotaque forte... e ele não parecia se comover com a menina, que parecia vestir o uniforme da Lufa-Lufa...
...isto ser muita ingenuidade, minha cara! Eu pertenço a mais tradicional das famílias bruxas e jamais mancharia a honra de minha família misturando-me com impuros! Em suas veias correm sangue trouxa! Não seja tola e meta-se apenas com seus pares!
Um mal estar abateu sobre Crookshanks, sentindo um nó na garganta, náusea, mal estar... por que uma lembrança como aquelas lhe fazia isso? Não teve muito mais tempo em suas divagações, pois a cena adiante chamara-lhe a atenção. Dean estava abraçando fortemente a Hermione, que tentava consolá-lo. O garoto estava mesmo muito ferido, pois chorava a balde sobre o ombro da menina.
Me desculpe, Mione... – Dean desvencilhava-se da garota calmamente. Você tem seus próprios problemas e eu aqui perturbando com os meus...
Tudo bem, Dean... – Hermione enxugava as lágrimas do rosto do garoto com as mãos. Mas, agora, é melhor você ir até o banheiro jogar água no rosto. Daqui a pouco os outros alunos estarão descendo pro Salão e seria muito chato se lhe vissem assim. Não precisamos de mais escárnio do que já temos, não é mesmo?
Obrigado, Mione! Muito obrigado, mesmo... tente não se meter nessas roubadas como eu fiz! Não deixe que te magoem...
É... eu tento...
Hermione entra cautelosamente no dormitório, acompanhada por Crookshanks. Ainda não eram nem 7:30 e, por sorte, todas as suas colegas de quarto só acordavam após esse horário, próximo do café. Pegou cuidadosamente, sem fazer ruídos, seu uniforme, a capa preta e uma toalha, indo direto para o banheiro. O gato enfiou-se por entre as cortinas do dossel, ocultando-se no interior, confortavelmente na cama ainda arrumada. As palavras de Dean não saiam de sua cabeça, bem como a mágoa que o assolava. E Hermione... ela era realmente incrível, com uma alma imensa. Jamais conhecera alguém como ela... talvez apenas a pudesse comparar com Dumbledore, McGonagall e até mesmo Hagrid, mas ele não conhecia essas pessoas intimamente, como conhecia Hermione. Ela era só uma menina, mas tinha tanta força interior que podia dividir com outros, mesmo quando ela precisava para si de toda força possível. No final das contas, os puros-sangues viviam a ilusão de uma falsa força, num mundo diminuto e frágil... tão frágil que precisavam, desesperadamente, se agarrar a essa tolice do sangue-puro, da família tradicional, como ele próprio já o fizera e, por causa de uma estúpida honra de família, era o que era hoje!
Hermione apareceu já arrumada para as aulas, tirando Crookshanks da cama.
Vamos, Shanks! Não quero que essas garotas o vejam aqui quando acordarem. Irei arranjar seu lanche e você trate de se manter o dia todo longe dessas pessoas, ouviu? Tenho medo do que elas possam vir a fazer contigo sobre as alegações mais idiotas.
Nem era preciso lhe dizer isso, hoje havia decidido ir visitar um velho amigo, que não visitava desde o final do ano letivo anterior.

Fim do Capítulo IV – continua...
By Snake Eyes – 2004

Nenhum comentário:

Santa Tranqueira Magazine