quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Capítulo II - Finite Incantatem Animago.


ANIMAGO MORTIS
Capítulo II - Finite Incantatem Animago

Hermione estava sentada em frente à penteadeira do dormitório, arrumando-se e prendendo alguns cachos que caiam sobre seu rosto com delicadas e quase imperceptíveis presilhas, deixando a mostra seu rosto de uma beleza simples, mas autêntica. Com o dedo indicador, passava duas gotinhas de seu perfume, uma gotinha atrás de cada orelha... suzuran, a fragrância que escolheu para si, desde que visitou o Japão na últimas férias com seus pais. Ficou encantada com aquelas delicadas florzinhas em forma de sino, que pendiam-se em caules ainda mais delicados. Gostava da lembrança que aquele aroma lhe trazia, lembrando-se da melhor parte da viagem, quando foi visitar o parque de Fujiyama, um lugar incrível e de beleza exótica. À noite, próximo ao riacho em que viu pela primeira vez as suzurans, brincavam vaga-lumes, refletindo sua luz nas águas velozes do córrego, enquanto a brisa fresca varria a vegetação num silêncio muito confortante... podia jurar que as pequeninas flores em forma de sino soavam como guizos com o balançar do vento e quando Crookshanks lhe havia trazido um pequeno ramalhete como presente.
Sentiu algo fofo roçar suas pernas, o que a fez despertar de suas agradáveis lembranças. Olhando para baixo, sorriu ao ver que tratava-se de Crookshanks. Fechou o frasco de perfume, pegou o gato no colo e levantou-se da penteadeira.
O que tem dado em você, heim Shanks? Nestes últimos tempos você tem passado a noite toda dormindo... não sai mais pra passear...
O gato olhava Hermione diretamente nos olhos e, como resposta, jogou-se contra o colo da dona, fechando os olhinhos amarelos e ronronando alto. Hermione riu, e como retribuição pelo afago, coçava atrás das orelhas do bichano.
Ainda é cedo para o café da manhã, então temos quase duas horas até o desjejum para estudarmos na biblioteca.
Eram apenas 6:37 h da manhã. A imensa biblioteca de Hogwarts estava completamente deserta, como era de se esperar. Nem mesmo Madame Pince, a bibliotecária, estava ali a esta hora. Hermione esperou que Crookshanks entrasse para fechar a pesada porta de carvalho. O gato dirigia-se até as prateleiras, quando parou e esperou pela decisão da dona, de qual matéria estudariam hoje.
Rony e Harry podem dizer o que quiserem, mas eu tenho certeza de que você realmente entende a literatura... e o que gostaria de ler hoje, Sr Crookshanks?
Hermione sorria em direção do gato, dirigindo-lhe a pergunta. Ela própria se questionava se estava em sã consciência, por achar que o gato era capaz de entender tudo o que dizia e, principalmente, era capaz de ler! Embora já tivesse pesquisado a exaustão sobre gatos – e outros animais mágicos de aparência comum – e arrancado todo o conhecimento de Hagrid a esse respeito, ela jamais encontrou qualquer linha que mencionasse que tais animais bruxos tinham capacidades humanas de ler, por exemplo. Tudo que encontrou a respeito de gatos bruxos era que tais criaturas eram excelentes para detectar pessoas suspeitas e focos de magia, mesmo que totalmente imperceptíveis para o mais experiente bruxo, além da grande orientação de espaço, jamais se perdendo e, até, ajudando outros animais ou pessoas a encontrarem o caminho certo, caso estas se perdessem. A capacidade de detectar pessoas suspeitas e focos de magia, mesmo que latentes, foram muito bem comprovadas quando Crookshanks tentou capturar o rato de Rony, Perebas, a todo o custo, em seu terceiro ano em Hogwarts. O gato havia detectado que o rato era, na verdade, um animago... o animago Peter Pettigrew, o traidor dos Potter.
Crookshanks, como havia feito algumas vezes desde o fim do outro ano letivo, correu em direção a uma grande porta no final do salão, meio que escondida entre as grandes prateleiras de livros. Hermione limitou-se a pôr as mãos sobre os quadris, um tanto impaciente. Sua voz, mesmo baixa, ecoou pelo salão vazio de outros seres viventes além dela e do gato.
De novo, Crookshanks? O que tanto você quer aí? Já falei várias vezes que a área reservada da biblioteca é estritamente restrita aos alunos, salvo raras exceções! E está enfeitiçada, não há como entrarmos aí sem ajuda de Madame Pince.
O gato olhava triste para sua dona e, de cabeça baixa, retornava para perto da menina, que o pegava no colo e andava entre as prateleiras, procurando livros específicos, enquanto conversava com o gato.
Lá estão livros raríssimos, alguns muito antigos, desde a fundação de Hogwarts. Há também livros poderosos de magia negra... eu realmente gostaria de poder entrar lá e ver todo esse tesouro... espero algum dia ainda poder ter esse privilégio...
Hermione postava-se nas pontas dos pés para alcançar um livro sobre poções que julgava ainda não ter visto, decepcionando ao ler o título da capa. Ela já havia estudado tal livro, até mais de uma vez. Deu um longo suspiro de tédio, olhando para o resto do corredor de prateleiras, procurando algo novo. Certamente, ela já havia lido toda a biblioteca de Hogwarts. Estava decidida a pedir autorização ao diretor Alvo Dumbledore para ter acesso à seção reservada. Ela que já provara inúmeras vezes ser uma pessoa totalmente responsável a ponto mesmo de receber autorização para usar um vira-tempo, era quase certo de que teria o livre acesso à parte restrita da biblioteca pelo diretor.
Crookshanks pulara de seu colo e ia correndo até o final do corredor, sumindo atrás das prateleiras. Hermione o seguiu curiosa, queria ver o que ele queria dessa vez. Dobrou a prateleira e ficou observando o gato de longe. Este andava olhando para o alto da prateleira a sua esquerda, como se procurasse algo. Parecendo ter achado o que procurava, começou a escalar os andares de livros, o que fez Hermione correr em direção ao gato, temendo que ele fizesse uma grande besteira que estragasse os livros.
Crookshanks! Desça já daí! Você vai acabar destruindo esses livros e Madame Pince nos crucificará por uma semana!
O gato não deu ouvidos a dona, derrubando um livro com a patinha, jogando-se ao chão logo em seguida. Em desespero, Hermione apontou sua varinha fazendo o livro flutuar até suas mãos. Virando a capa para cima, para ler o título.
”Animago Mortis”...
O gato olhava curioso para Hermione, como se esperasse alguma resposta ou comentário, até que esta voltou seu olhar para o bichano.
Isso aqui não é um livro didático, é um romance bruxo. E, além disso, eu já o li e, pelo que lembro, você também, Crookshanks...
Crookshanks num meio salto postou-se nas pernas da menina, roçando sua cabeça contra. Hermione entendeu aquilo como um pedido, e riu.
Ah! Então você gosta de contos de fadas, gatinho esperto? Tudo bem, você venceu! Também acho que é uma boa para passar o tempo até o café da manhã. Além do mais, já perdemos 15 minutos do nosso precioso tempo.
Durante o café da manhã, Hermione sentiu que o murmurinho na mesa da Grifinória, especificamente entre os alunos de sua turma do 7º ano, estavam falando de si. Adivinhando o que talvez seria e dando de ombros – afinal, ela tinha que aprender a não se importar mais com essas atitudes de seus colegas – não se deu nem ao trabalho e nem a curiosidade de perguntar do que falavam, apenas continuava a comer tranqüilamente seu desjejum enquanto tentava absorver mais um pouco da matéria que seria ensinada daqui a pouco na aula de Transfiguração. Se nesses últimos tempos Hogwarts estava tornando-se insuportável para si devido as atitudes e conversinhas tolas de seus colegas, ao menos deveria tirar o melhor proveito, pois sabia que o conhecimento ali adquirido a acompanharia para o resto da vida e isso ninguém tiraria dela. Já as supostas amizades que tinha, principalmente com Harry e Rony, lhe traziam muitas dúvidas se conseguiriam sobreviver pós-Hogwarts, apesar de todos os pesares.
Durante a aula de transfiguração, sentiu coisas estranhas novamente. Sentia que havia olhares de seus colegas para si. Também sentia que a Professora McGonagall lhe dirigia uma atenção diferente. Viria, a saber, o porque logo após a aula, quando a professora, ao dispensar todos os alunos, pedira a ela para que ficasse, pois precisavam conversar.
Sabendo que a professora McGonagall não era imprevisível, ela manteve-se tranqüila. Decerto, a professora iria querer falar sobre o seu cargo de Chefe dos Monitores ou sobre as provas para NIEM que teria que fazer este ano. Pacientemente, Hermione esperou em frente à mesa da professora, aguardando a saída do último aluno, para que McGonagall lhe dirigisse a atenção.
Sente-se, querida. Não é preciso permanecer em pé.
Hermione obedeceu um tanto intrigada, pois não era isso que esperava ouvir. Geralmente, as conversas que tinha com a professora não duravam mais de 2 ou 3 minutos, pois eram sempre em relação a escola, apenas para noticiar alguns fatos que, na sua grande maioria, não havia quase nada fora do habitual.
Hermione, a conversa que gostaria de ter com você não é de professora para aluna, mas de amigas... – McGonagall mantinha um olhar preocupado para Hermione e esta, por sua vez, estremeceu levemente ao ouvir aquilo. Não que seria ruim ter uma conversa amigável com a professora, longe disso, mas que aquilo era mesmo muito estranho, isso era. Inúmeras vezes passou horas conversando com a professora sobre diversos outros assuntos além dos relacionados à escola, mas nunca desta forma, em que a professora precisava segurá-la mais tempo na sala de aula... deveria ser algo muito sério. Hermione prendeu a respiração e dirigia toda a atenção à senhora que estava sentada a sua frente.
Bem, vamos direto ao assunto, pois não quero atrazá-la para sua próxima aula. Não se preocupe que não a deterei por mais que 10 minutos.
Tudo bem professora... a próxima aula é do Prof Flitwick e ele é bastante compreensível com os alunos. Mas... aconteceu algo de grave, professora? É alguma coisa que fiz de errado, alguma ordem equivocada aos outros monitores ou...?
Não, não, querida. O seu comportamento é exemplar até mesmo como Chefe dos Monitores. Não há absolutamente nada errado ou atípico sobre o que reclamar de você, seja como monitora, seja como aluna...
Então? – Hermione ficava mais apreensiva, colocando as mãos sobre a mesa da professora e apertando-as fortemente, sentia que elas estavam umedecendo. Detestava esse tipo de situação em que não previa o que estava para acontecer ou para ser dito.
É algo pessoal, é sobre você, como pessoa. Seus colegas, Hermione, me procuraram e eles estão muito preocupados contigo, principalmente Weasley e Potter. As senhoritas Brown e Patil me procuraram também e... elas também estão muito preocupadas com você, querida...
Hermione suspirou fundo, revirando os olhos de descontentamento. Então era isso?
Afff! Então era por isso aquele burburinho durante o café da manhã? – Falou em tom baixo, mais para si mesma, mas alto o suficiente para a professora ouvir.
Que burburinho? – Minerva olhava desconfiada, talvez não fosse apenas uma fofoquinha de alunos ociosos.
Er, bem... eu senti que cochichavam algo ao meu respeito hoje pela manhã, no desjejum e... também senti alguns olhares inquisitores em minha direção durante a aula da Senhora. Mas... não faço a mínima idéia do que possa se tratar. Não me lembro de ter destratado injustamente ninguém e também não sou de me envolver em intrigazinhas. Aqui dentro de Hogwarts, minha vida é a escola... não me arriscaria com bobagens, seja lá o que fosse.
Eu sei disso, perfeitamente. Reitero o que disse: você é uma aluna exemplar. Mas o que estou falando é sobre você como pessoa, como uma moça, para assim dizer... seus amigos estão preocupados exatamente com essa sua atitude um tanto retraída, de nunca participar da interação com os outros alunos fora do ambiente escolar. Eles estão preocupados com a sua preferência de estar todo o tempo em companhia de livros e... suas colegas com quem divide o dormitório, me disseram que você passa horas conversando sozinha, antes de dormir...
Minerva envolveu firmemente as mãos da menina com as suas, como se quisesse lhe passar uma confiança ainda maior, para que a menina sentisse segura em falar se algo de errado a estava acometendo. Hermione, por sua vez, estava estupefata, com olhos arregalados para a professora... o que ela iria dizer? Que seus colegas estavam tempo demais a toa para ficarem se metendo em sua vida particular?!
Eu realmente não sei o que lhe dizer sobre isso, professora... De fato, prefiro muito mais a companhia de livros a desperdiçar meu precioso tempo com brincadeirinhas tolas e conversas sem propósitos... não acho que isso me trará algum benefício, muito pelo contrário. E quanto à Lilá e Parvati... elas passam horas em conversas antes de dormir, às vezes em voz alta e soltando risadinhas, nem sequer se importam se incomodam ou não as outras colegas... não sabia que meus monólogos com Crookshanks estavam as incomodando! – Hermione terminou a frase com uma expressão brava, desviando o olhar raivoso para um ponto qualquer da sala. A professora apertou ainda mais as suas mãos.
Hermione, querida... gostaria muito de continuarmos essa nossa conversa. Por favor, venha até minha sala particular à noite, após o jantar e antes da sua ronda. Agora é melhor que vá para a aula de Feitiços, não podemos deixar o Prof Flitwick triste com sua ausência. E, por favor, não fique chateada com seus colegas... eles apenas querem o melhor para vocês. Eles realmente gostam de você e estão muito preocupados.
Hermione já estava próxima à porta, quando respondeu à professora de forma tediosa.
Ah, ta... sei... estarei na sua sala às 8:30h professora.
Hermione por mais furiosa que estava, tentou ser o mais gentil possível ao falar com o Prof Flitwick, quando entrou em sala, já atrasada. A aula era dividida com o 7º ano da Lufa-Lufa e todos os alunos desviaram seus olhares para ela.
Desculpe-me, Professor. A Profª McGonagall precisava me falar com certa urgência e...
Está tudo muito bem, Srta Granger. Não se incomode com alguns poucos minutos de atrazo. Acomode-se em seu lugar para que possamos ver hoje uma série de vários feitiços avançados de ilusão.
Hermione apenas assentiu com a cabeça e rumava para uma das cadeiras vagas no final da sala. Focalizou pelo caminho Harry e Rony, que estavam apreensivos, encolhendo-se em seguida com o olhar fuzilante de Hermione. Parvati e Lilá abafavam risadinhas enquanto olhavam de esgueira para Hermione que, em troca, mandou-lhe o mais mordaz de seus olhares que pareceu ter queimado as duas amiguinhas, que se calaram de imediato, afundando na cadeira.
“"cio em excesso... terei que tomar uma providência sobre meu caros amigos tão preocupados com meu bem estar!”
Após terminar seu jantar, Hermione levanta-se da mesa, sem olhar para ninguém – ainda estava aborrecida pela intromissão de seus colegas em sua vida, como se sua opção de ocupar um tempo ocioso com algo importante como livros fosse a coisa mais absurda do mundo.
Onde você vai, Mione? Nem sequer tocou na sua sobremesa... você está bem? – Harry lhe falava, entre uma colherada e outra de seu pavê de chocolate. Hermione apenas o olhou de lado, observando em seguida que seus outros colegas “muito preocupados” com seu bem-estar estavam muito interessados nela naquele momento. A frieza que vinha de si parece que congelou toda a mesa da Grifinória e alguns alunos, principalmente os do 7º ano, mudaram de assunto ou fingiram que estavam fazendo outras coisas.
A Prof McGonagall me convidou a ir até sua sala particular para uma conversa... parece que meus bons amigos estão preocupados com minhas atitudes responsáveis demais... realmente, responsabilidade e dedicação não combinam com a idade de 17 anos.
Hermione saiu do salão antes que qualquer um desse alguma resposta ou uma desculpa qualquer. Rony, Harry, Lilá e Parvati apenas se entreolharam meio sem-graça, meio temendo alguma retaliação por parte da Chefe dos Monitores; embora isso não fosse típico de Hermione, mas aquele tratamento álgido para com eles era menos típico ainda.
Enquanto Hermione caminhava lentamente até a sala particular de Minerva McGonagall, encontrou algo se esgueirando pelas paredes de pedra, ocultando-se nas sombras formadas pelas tochas. Parou e ficou a espera, observando a pequena figura ainda distante. Pela difusão das luzes, seus olhos tornavam-se dois faróis que refracionavam a luz ambiente como raios.
Ao perceber que se tratava de Hermione, o gato persa alaranjado correu em sua direção, jogando-se contra as pernas da moça, roçando sua cabeça. A garota abaixou-se para cumprimentá-lo com alguns tapinhas no seu dorso.
Shanks! Vamos até a sala da prof Minerva, ela quer falar comigo. Acho que ela não se importará se você também for, já que ela própria pode transformar-se num gato quando quer...
Chegando em frente à porta da sala particular da professora, a figura de um leão dourado que ornamentava a entrada, deu um rugido baixo, abrindo a porta e dando passagem à garota e ao gato. A professora deve ter enfeitiçado a porta para permitir a entrada de Hermione assim que ela chegasse. Sem mais demoras, Hermione adentrou a sala junto com Crookshanks, sentando-se numa confortável poltrona de dois lugares em veludo bege, com base em madeira escura esmerosamente entalhada. Todo o ambiente tinha uma decoração simples de muito bom gosto, que mais parecia uma casa trouxa de família de classe média. Eram poucos móveis, o que dava ao ambiente mais conforto. Um tapete de mesma tonalidade das poltronas com felpos fofos de lã, alguns quadros de paisagens que moviam-se como se fossem paisagens reais vistas da janela, uma grande lareira e alguns objetos delicados de decoração sobre o consolo, alguns abajures com estampas graúdas de flores no mesmo tom terral do resto da decoração.
Crookshanks parecia ter adorado o grande tapete felpudo, pois não parava de rolar de costas sobre ele. Hermione ria das gracinhas do gato, que colocava-se de barriga para cima fazendo carinha pedinte por afago. Lembrou-se de que talvez a professora não fosse gostar que seu tapete ficasse cheio de pêlos alaranjados, então convidou o gato a esperar comportado em seu colo.
Instantes depois, a professora Minerva adentra a sala, com um sorriso sincero nos lábios, ao ver a aluna sentada lhe esperando. Aproximou-se da menina, ainda sorrindo.
Que bom que veio, querida! E esse gatinho? É o Crookshanks, certo?
É, é ele mesmo. E gatinho é só carinhosamente... como Harry diz, ele é um tigre muito pequeno.
A professora que aprecia gatos, principalmente porque sua forma animaga é a de um gato, afaga a cabeça do bichano, que retribui com um pequeno ronronar.
Venha, vamos até meus aposentos. Pedi para que os elfos tragam chá e alguns doces. Vi que você não jantou direito esta noite.
Ah, bem... estava um tanto ansiosa para a nossa conversa...
Os aposentos da professora eram, obviamente, ainda mais confortáveis que sua sala de estar onde antes estavam. Uma grande cama de dossel estava parcialmente oculta por suas cortinas de seda e renda, em tons de bege. Ficava ao canto do grande cômodo, próxima a uma janela de vitrais, com o símbolo e cores da Grifinória. Professora e aluna estavam frente à lareira, onde havia mais duas poltronas e uma mesa de centro, onde estava a bandeja de chá e doces. Enquanto elas duas bebiam o chá, Crookshanks se lambuzava com uma generosa fatia de bolo de morangos e chocolate. Para Hermione, não importava o assunto que tratasse, sempre era muito agradável estar em companhia da velha professora, e, naquele momento, não era diferente.
... eu só não entendo o porquê de só agora eles se implicarem com meu jeito de ser, de agir... desde que entrei para Hogwarts que ocupo meus tempos livres com livros e estudos, isso não é nenhuma novidade para ninguém!
Sim, sei disso... mas, ao que pude perceber, a preocupação deles é com você estar se afastando cada vez mais de atividades em grupos que não envolvem a escola, de não interagir com seus colegas e quando alguém se aproxima para alguma conversa, você os destrata, se aborrecendo e se retirando para o dormitório...
Hermione fechou os olhos, respirando fundo para conter sua fúria crescente... como eles podiam ser tão injustos?
Então é isso? Eles por acaso não mencionaram o teor da conversa deles? Da implicância e falta de respeito com tudo que me diz respeito? Uma hora é por causa do meu cargo de Chefe dos Monitores, outra por causa do meu gosto por estudo, outra pela minha descendência de trouxas... até com Crookshanks estão implicando agora! Perdão professora, mas meu limite de tolerância com essa falta de respeito está quase a zero!
Eu entendo, Hermione... mas espero que você saiba que alguém em sua posição gera muita inveja, principalmente. Não a convidei para essa conversa para acusá-la de nada, mas para ouvir a sua argumentação. E sei também que precisa ser algo grave para você chegar a destratar alguém, isso não é de sua natureza. Agora, sobre o seu gato...
O Shanks? O que tem ele? Vai me dizer que aqueles ingratos estão maldizendo do meu bichinho, que ele tá incomodando, depois de tudo o que ele já fez?!
Não, eles não estão incomodados com Crookshanks, nem estão maldizendo dele... apenas me falaram algo que... bem, achei mesmo muito engraçado.
Hermione relaxou, jogando-se para trás na poltrona, dando um largo sorriso.
Aposto que Rony e Harry falaram que Shanks fica lendo junto comigo... ou melhor, que eu estou ficando louca por achar que o gato tem a capacidade de ler e compreender, não é isso?
A professora retribuiu o sorriso, mas não com o mesmo otimismo.
Exatamente, e gostaria de ter dado a mesma risada que a sua diante da cara perplexa dos dois meninos ao me contarem isso, mas... preciso perguntar, Hermione: é verdade?
Hermione ficou séria, mesmo porque ela acreditava veemente nessa possibilidade. Se ela falasse isso, a professora podia achar que ela está enlouquecendo... por outro lado, se houvesse algo de errado consigo, Minerva McGonagall era a melhor pessoa do mundo para auxiliá-la. Então, era melhor ser sincera, mesmo porque ela não gostava de mentir, ainda mais para sua professora, que lhe era quase uma mãe.
Er... é verdade... sempre que leio ou estudo, Shanks fica junto comigo, como se estivesse mesmo lendo e estudando junto... e também acho que ele compreende tudo que acontece e é dito ao seu redor... mas creio que essa é uma característica, mesmo porque ele é uma criatura mágica, não é um gato comum...
A professora parou por instantes como se estivesse analisando a informação. Mordia o lábio inferior e dirigia seu olhar intrigado para o gato, que parava de comer a fatia de bolo para prestar atenção à conversa. Minerva ficou ainda mais intrigada com essa atitude do gato, era perfeitamente visível que ele prestava atenção, logo, devia compreender o que era dito. Ela levantou-se de sua poltrona e andou em direção do gato, parando frente a ele a certa distância. Crookshanks apenas acompanhava a senhora, dirigindo-lhe um olhar curioso. Suas orelhas estavam totalmente voltadas para frente, demonstrando seu total interesse na situação. Minerva saca sua varinha e aponta para o gato, que faz Hermione levantar da poltrona num salto, quase voando em direção à professora.
Professora, não! O que a senhora vai fazer?! Crookshanks pode ser estranho, mas é muito bonzinho! Por favor, não faça nada!
Não precisa temer nada, Hermione! Não farei qualquer mal à Crookshanks... apenas quero testar algo nele. Não irá machucá-lo, lhe asseguro.
Crookshanks olhava curioso para Hermione, como se esperasse alguma resposta dela. Por sua vez, a menina estava apreensiva com aquilo, mas confiava na professora, dando-lhe permissão de fazer tal ‘teste’.
Não entendi o que a senhora quer com isso, mas se a senhora diz que não fará qualquer mal à Shanks...
Não farei, lhe prometo! – Firmando a varinha para o gato, proferiu o feitiço:
Finite Incantatem!
Uma luz saiu da varinha de McGonagall, que envolveu Crookshanks como uma névoa brilhante. A névoa dissipou-se rapidamente e nada parecia ter mudado no gato. Hermione apenas olhava atônita, ainda não entendia aonde a professora queria chegar. O gato apenas ficou observando a névoa se dissipar, voltando sua atenção à professora.
Finite Incantatem Animago!
Uma nova névoa brilhante, mas ainda mais densa, envolveu o gato num redemoinho nervoso. Por instantes, o gato desapareceu dentro da névoa dourada, quando essa começou a se dissipar, espalhando-se pelo ambiente. Crookshanks parecia nervoso. Seus longos pêlos estavam arrepiados e olhava para si para todos os lados. Suas orelhas murcharam e ele olhou tristemente da professora para Hermione. Emitiu um miado melancólico e pulou no colo de sua dona, agarrando-se ao pescoço da menina. Estava tremendo e emitia um baixo chiado.
Oh, pobrezinho! Ficou com medo! Mas não doeu nada, doeu?
Desculpe-me, Hermione, mas precisava tirar essa dúvida...
Eu não entendo... esse último feitiço que a senhora lançou sobre Shanks...
Por toda a descrição que você me deu sobre o gato... desconfiei de que podia tratar-se de um animago.
Mas, mas... se fosse, eu já teria descoberto! Estou com ele há 4 anos e...
Weasley permaneceu com Peter Pettigrew por 12 anos em sua família e como sabe, é uma família de bruxos sangue puro, acostumados com todo o tipo de magia e... eles jamais perceberam que o rato de Rony Weasley era um animago... aliás, nem eu própria havia percebido, mesmo tê-lo visto diversa vezes.
Mas, Peter Pettigrew era uma pessoa ruim, que cometeu crimes horríveis... ele estava se escondendo então não deixaria nunca que descobrissem sobre ele, até que Shanks descobriu... então, por ter ficado contra um comensal da morte, certamente Shanks, se fosse mesmo um animago, pelo menos não seria um inimigo...
Desculpe por tê-la deixado confusa, Hermione. Mas nem sempre um animago permanece nessa forma por que quer. É por isso que essa capacidade é acompanhada de perto pelo ministério, tem que ser praticado sob acompanhamento de bruxos experientes. Às vezes, um animago não sabe como voltar à forma humana, permanecendo na forma animago até a morte.
A professora aproxima-se da menina, acariciando as costas do gato, que está agarrado e encolhido em seu colo.
Desculpe-me, gatinho. Não queria deixá-lo com medo. Agora é melhor você ir, Hermione, já são quase 10, hora da sua ronda noturna.
Hermione andava apressada em direção à torre da Grifinória. Crookshanks ainda estava em seu colo, meio trêmulo. Iria deixá-lo em sua cama no dormitório antes de começar sua ronda. A menina ia acariciando a cabeça e costas do gato, tentando confortá-lo... foi mesmo uma historia muito estranha.
Passou pelo quadro da mulher gorda, entrando no salão comunal e indo direto ao dormitório, ignorando todos pelo caminho, inclusive os colegas que a cumprimentavam. Estava preocupada com Crookshanks e também estava atrasada para sua ronda noturna. Esperava que o gato se acalmasse em sua cama.
Com certa dificuldade, colocou o gato deitado no meio de sua cama. Crookshanks não queria desgrudar do pescoço de sua dona. Com muito carinho, Hermione fez com que ele se deitasse, postando-lhe um beijo em sua cabeça.
Fique quietinho aqui, Shanks. Daqui a duas horas estarei de volta pra ficar contigo. Irei enfeitiçar o leito, ninguém irá perceber que está aqui, então ninguém lhe fará mal, está bem?
Hermione murmura um feitiço, apontando sua varinha para as cortinas da cama. Desamarra as cortinas, cobrindo totalmente sua cama. Agora, o que acontecesse dentro daquelas cortinas, não seria percebido por quem estivesse fora... deveria ter pensado nisso muito antes, assim teria poupado-se daquelas conversinhas tolas de Parvati e Lilá, e elas jamais saberiam que ela fica ‘falando sozinha’ antes de dormir.
Na cama, abaixo das grossas cortinas de veludo carmesim, Crookshanks deu duas voltas em torno de si mesmo, enrolando-se como um caracol, enfiando a carinha embaixo da pata. Seus olhinhos amarelos brilhavam como se estivessem marejados, um ar melancólico pairava sobre o felino, que adormeceu envolto do calor aconchegante do leito e do perfume de suzuran de sua amada Hermione.

Fim do Capítulo II – continua...
By Snake Eyes - 2004

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